Células-tronco: quando poderemos nos tratar
com elas?
O Globo 24 de novembro de 2006
opinião da Dra. Mayana Zatz
Toda vez que falo em células-tronco (CT), surge imediatamente
a pergunta: "Quando essas pesquisas poderão se transformar
em tratamento? Quanto tempo ainda teremos que esperar, cinco,
dez, vinte anos?".
É uma pergunta muito difícil de responder. Por
outro lado, recebo centenas de e-mails de pessoas com os mais
diversos problemas, que querem ser cobaias e submeter-se a um
tratamento com essas células -- aparentemente milagrosas.
A maioria tem doenças graves, algumas progressivas e
letais, o que justifica sua pressa e angústia. Mas outras
querem tratar problemas como calvície ou impotência
com CT. Será que acreditam que as CT vão ser a
panacéia para todos os males? Que doenças poderão
ser tratadas?
Em primeiro lugar, é fundamental que não se confunda
tratamento com tentativa terapêutica. Pessoas com problemas
cardíacos, derrame, diabetes, lesões medulares,
esclerose múltipla e esclerose lateral amiotrófica
já receberam injeções de CT. Em todas elas,
retiraram-se CT da medula óssea da própria pessoa,
para reinjetá-las em outro órgão (por exemplo,
o coração).
Esse procedimento, que seria algo como um "auto-transplante",
tem a vantagem de não ocasionar rejeição.
Mas, por outro lado, não traria resultados em doenças
genéticas (porque todas as células do indivíduo
estão afetadas).
Além disso, o potencial de CT obtidas da medula óssea
-- capazes de formar diferentes tecidos -- ainda não
é conhecido. Só podemos falar hoje de tratamento
com CT no caso de doenças hematológicas como leucemia
ou alguns tipos de anemias. Nos outros casos, trata-se de pesquisas
experimentais, onde os benefícios clínicos ainda
precisam ser comprovados.
Se por um lado, a terapia celular com CT representará
um salto gigantesco na medicina, nem todas as doenças
poderão ser tratadas com essa abordagem. Um problema
importante a ser contornado é o risco de formarem-se
tumores. Quanto mais primitiva for a CT (como é o caso
da célula-tronco embrionária), maior o seu potencial
de formar diferentes tecidos; mas também de originar
tumores, se injetada no organismo.
Qual "ordem" uma célula, ainda no embrião,
recebe para se diferenciar em músculo, sangue, osso ou
qualquer outro tecido? Quem comanda esse "show"? Entender
esse processo vai ser muito importante para que possamos controlá-lo.
Como eu trabalho com doenças neuromusculares, onde os
pacientes afetados têm uma degeneração progressiva
da musculatura, quero que as CT (uma vez injetadas no organismo)
estejam comprometidas a formar somente músculo, e não
outro tecido. Isso é fundamental, antes de falarmos em
tratamento.
Sempre digo que as pesquisas são como a construção
de uma casa, onde cada resultado corresponde a um tijolinho.
Um dia chegaremos ao telhado -- e a casa poderá abrigar
muita gente. Uma pesquisa publicada por um grupo de pesquisadores
italianos, na revista "Nature" de 16 de novembro pode
significar muitos tijolinhos. Esses cientistas injetaram um
tipo especial de CT adultas (chamadas de mesoangioblastos) em
cães afetados por uma forma de distrofia muscular progressiva
(DMP), muito semelhante a DMP humana. (Nessas doenças
ocorre uma degeneração progressiva da musculatura,
e, nas formas mais graves, como na distrofia de Duchenne, meninos
afetados perdem a capacidade de andar por volta dos 10 anos
de idade.) Quatro dentre seis cães italianos tratados
mostraram uma recuperação significante do músculo
e uma melhora clínica. Para nós, que estamos fazendo
pesquisas semelhantes na Universidade de São Paulo, esses
resultados foram uma injeção de ânimo.
Estou convencida de que, no futuro, conseguiremos refazer não
só tecidos em laboratório, mas também órgãos,
abolindo para sempre a fila de transplantes. Porém, ainda
temos que fazer muitas pesquisas (no laboratório e em
modelos animais), antes de podermos falar em tratamento seguro,
sem risco de vida para os pacientes. Como esse assunto gera
uma enorme expectativa nas pessoas afetadas, é fundamental
que esse tema seja debatido e esclarecido por cientistas à
medida que as pesquisas avançam. O trabalho publicado
pelo grupo italiano sugere que, talvez, possamos chegar ao telhado
da casa mais rápido do que pensávamos. E abrigar
muita gente.
Mayana Zatz
Mayana Zatz é geneticista, pró-reitora
de pesquisa e diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano
da Universidade de São Paulo. Também trabalha
há décadas com aconselhamento genético,
ajudando famílias sob risco de desenvolver problemas
de saúde de origem hereditária.
O Globo 24 de novembro de 2006
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