Os problemas éticos que, para muitas pessoas, tornam impensável a obtenção de células-Tronco a partir de embriões humanos estão começando a receber uma resposta cientifica. Dois novos estudos conseguiram, em camundongos, obter essas células por meio de técnicas diferentes, uma das quais não causa dano algum ao embrião recém formado.
Ainda há um abismo entre essas demonstrações de que o conceito pode funcionar e sua aplicação em humanos. No entanto, ela pode ser o primeiro passo para resolver um dilema que divide cientistas e religiosos no mundo todo. O lado religioso argumenta que destruir um embrião equivale a matar um ser humano.
Os cientistas, por sua vez, ressaltam a promessa que as células-tronco representam para medicina, por serem capazes de se transformar em qualquer tecido do corpo humano. O impasse vem dilacerando os EUA e ainda divide muita gente no Brasil.
As propostas para contornar essa terra de ninguém ética foram publicadas on-line ontem na revista cientifica britânica “Nature” (www.nature.com). Paradoxalmente, nenhum dos grupos de cientistas se diz no direito de criticar as motivações de quem quer usar as técnicas atuais para obter celulas-tronco embrionárias.
“Há uma tragédia humana muito real acontecendo lá fora. Esperamos que nossa abordagem possa ser aperfeiçoada em humanos, mas muita gente não pode ficar esperando isso acontecer”, declarou à Folha o medico Robert Lanza, da empresa americana ACT (Advance Cell Technology). “O nosso papel não é abordar a discussão ética, mas criar uma base cientifica para essa discussão”, avalia Alexander Meissner, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussets, EUA).
Rápido e Indolor
Lanza e seus colegas usaram uma técnica que já serve para detectar defeitos genéticos em embriões que serão usados para implantação no útero. Ela funciona como uma biopsia – com a diferença de que, em vez de retirar pedaços minúsculos do órgão de um adulto, o exame obtém um oitavo do embrião recém-formado.
Essa proporção, na verdade, equivale a uma única célula, o chamado blastômero. A idéia era tentar usá-lo como fonte dos diversos tipos de tecido que só as células-tronco eram capazes de produzir. A equipe cultivou a biopsia ao lado de celulas-tronco embrionárias obtidas previamente. O truque funcionou: á célula solitária passou a se multiplicar e, em diversos testes, mostrou-se capaz de produzir os tecidos que se esperavam dela.
Sob encomenda
O segundo estudo, feito por Meissner e pelo especialista em clonagem Rudolf Jaenisch, seguiu caminho diferente. Eles testaram a viabilidade de uma proposta do bioeticista William Hurlbut, da Universidade de Stanford, que também integra o conselho de bioética do presidente George W. Bush.
Hurlbut, que é cristão, propôs criar um pseudo-embrião que pudesse servir de fonte de células. Essa entidade seria criada por clonagem. Seu material genético seria alterado de tal maneira, antes da transferência do núcleo da célula que inicia o processo de clonagem, que ele jamais seria capaz de se transformar num embrião.
“Essa ação garante o potencial de desenvolvimento que caracteriza um embrião humano nunca está presente, e, portanto não se destrói um embrião quando se obtém as celulas-tronco”, explicou Hurlbut à Folha.
Meissner e Jaenisch modificaram geneticamente embriões clonados de camundongos para que um gene conhecido como Cdx2 fosse silenciado. Esse gene age na formação do tecido responsável pela ligação entre o embrião o útero da mãe. Segundo os pesquisadores, com o gene desativado, o resultado da clonagem tinha forma aberrante e era incapaz de iniciar uma gravidez, mas ainda conseguia produzir as esperadas linhagens de celulas-tronco.
Fora o problema de aceitar a modificação genética das células antes de usá-las, o processo é “simples e direto”, diz a dupla.
Hurlbut se diz feliz com a noticia.”Como você pode imaginar, estou gratificados com essa publicação, Rudy (Jaenisch) e eu temos um dialogo continuo sobre essas idéias. Com esse estudo, ele nos dá base cientifica para um dialogo construtivo que poderá nos tirar esse impasse”.