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O Poder de Dividir

Células-tronco poderiam revolucionar a medicina, ao curar doenças fatais com tecidos e órgãos especialmente criados. Mas a ciência pode ceder à política o privilégio da decisão sobre quando essa esperança se realizará.

No começo, uma célula divide-se em duas e logo essas duas viram quatro. Elas se multiplicam, formando uma bola com inumeráveis células, uma cintilante esfera de potencial humano.

Há muitos os cientistas sonham em retirar essas células singelas de um jovem embrião humano e fazer com que reproduzam, em condições de isolamento e esterilidade, o mesmo milagre corriqueiro que realizam no interior do útero: transformar-se em todos os 200 e tantos tipos de células que constituem o corpo humano. Células hepáticas. Neurônios. Células da pele, dos ossos, dos nervos.[].

O grande sonho é desencadear uma revolução médica pela qual órgãos e tecidos enfermos poderiam ser recuperados - substituídos não por grosseiros dispositivos mecânicos, como bombas de insulina e juntas de titânio, mas por órgãos e tecidos vivos especialmente produzidos. Isso seria a aurora de uma nova era da medicina, um dos objetivos supremos da biologia moderna.

Infelizmente, porém, quase sempre as revoluções são período de confusão. Por isso, quando James Thomson, pesquisador da Universidade de Winconsi, em Madison, anunciou em novembro de 1998 que conseguira extrair células de embriões descartados em clínicas de fertilidade e, com isso, criar a primeira linhagem de células-tronco de embriões humanos no mundo,  tanto ele como seus colegas encontraram uma reação bem maior do que haviam imaginado. Era o tipo de descoberta que, em geral daria origem a um importante programa federal de pesquisa. Em vez disso, a descoberta foi engolfada pelas turbulentas águas da religião e da política.

As pessoas mais preocupadas são aquelas que consideram os embriões como membros plenos da sociedade e condenam a coleta de células nos embriões com algo próximo ao canibalismo.

Para elas, estaremos às portas de um admirável mundo novo, repleto de "fazenda de embriões” e "usinas de clonagem" voltadas à produção de órgãos humanos sobressalentes. Argumentam que os mesmo resultados seriam atingidos com base em células-tronco adultas, células imaturas presentes na medula óssea e em outros órgãos de humanos adultos, assim como em cordões umbilicais descartados após o nascimento.

Os defensores dessas pesquisas, por sua vez, afirmam que as células-tronco adultas, por mais úteis que possam ser em algumas doenças, até  agora não se revelaram capazes de produzir a gama completa de tipos de células que resultam das células-tronco embrionárias. Eles dizem que os congeladores das clínicas de fertilidade guardam milhares de embriões que não serão usados  e irão para o lixo. Cada um deles é menor do que o ponto no fim desta frase. Eles não têm características próprias nem sinais de um sistema nervoso. Se os pais concordarem em doá-los, afirmam os defensores, seria pouco ético não aproveitá-los na luta contra doenças terríveis.

Poucos questionam as chances que as células-tronco embrionárias abrem para a medicina. Basta considerar, por exemplo, a maior causa de morte nos Estados Unidos: as doenças cardíacas. As células-tronco embrionárias podem ser treinadas para se tornar células musculares cardíacas que, mesmo em uma lâmina de laboratório, se agrupam e pulsam em harmonia. Quando foram injetas em cobaias e porcos com doenças do coração, substituíram as células mortas ou danificadas e aceleraram a recuperação do animal. Estudos mundiais similares mostraram o potencial das células-tronco para tratamento de doenças como diabetes e danos à medula espinhal.

Os críticos lembram que nem todas os estudos com animais dão certo, e que houve casos preocupantes em que células-tronco embrionárias viraram tumores ou criaram tipos indesejados de tecido - formando, por exemplo, perigosos fragmentos ósseos naqueles corações que deveriam estar se recuperando. Os defensores argumentam que tais problemas são raros, e que muito já se avançou no sentido de impedir que isso ocorra.

Alguns países, como a Alemanha, alarmados com a possibilidade de experiências poucos éticas com seres humanos, já proibiram alguns tipos de pesquisa com célula-tronco. Já os Estados Unidos impuseram rígidas restrições ao financiamento oficial, mas deixou o setor privado livre para agir como quiser. Reino Unido, China, Coréia do Sul e Cingapura decidiram tornar-se os epicentros das pesquisas nessa área. proporcionando recursos, assim como supervisão ética, de modo a estimular os avanços no interior de limites cuidadosamente traçados. No Brasil, a Lei de Biossegurança aprovada em março libera a pesquisa com células-tronco de embriões inviáveis ou congelados há mais de três anos - mas é baixo o índice de amostras disponíveis no momento.

Sob condições políticas tão diversas, os cientistas estão ansiosos para ver qual técnica será  a primeira a resultar em terapias eficazes.

Durante mais da metade de seus 7anos, Cedric Seldon vem lutando contra a leucemia. Agora,  após esgotar todas as opções convencionais, está preste a tornar-se um pioneiro da biomedicina - ele é um dos cerca de 600 americanos que, em 2004, receberam transplante de sangue de cordão umbilical.

O uso de sangue umbilical - considerado uma terapia de célula-tronco adulta, pois as células são extraídas de bebês e não de embriões - é feito desde 1988. Tal como as medulas ósseas, cujo transplante é realizado desde 1968, o sangue do cordão umbilical contém em abundancia um tipo de célula-tronco que dá origem às hemácias (as células sanguíneas vermelhas que transportam o oxigênio), aos leucócitos (as células brancas que  combatem doenças), e a outros elementos do sangue e do sistema imunológico. Diferentemente de uma transfusão de sangue simples, que proporciona um lote de células destinadas a morrer em alguns meses, as células-tronco da  medula óssea e do sangue do cordão umbilical podem - se tudo correr bem - penetrar nos ossos, instalar-se para sempre e produzir sangue novo e células imunes para o resto da vida do receptor.

Em uma cama no Centro Médico da Universidade Duke, Cedric brinca com seus joysticks enquanto uma enfermeira se prepara para pendurar no suporte uma bolsa com células de sangue umbilical. Apenas uma hora antes, eu vira aquelas células sendo descongeladas e misturadas em uma centrifuga - o que as reativou pela primeira vez desde 2001, quando foram extraídas do cordão umbilical de um recém-nascido o doadas pelos pais ao banco de células da universidade. Havia chegado a hora de elas provarem sua capacidade   terapêutica

Durante vários dias,  Cedric fora submetido a doses cavalares de quimio e radioterapia em um derradeiro esforço para eliminar todas as células  cancerosas de seu corpo. Essa poderosa terapia tem o perigoso efeito colateral de destruir as células-tronco que produzem sangue do pacientes, e por isso nunca é adotada a não ser que novas células-tronco possam ser administradas. Uma pesquisa em todos os bancos de medula óssea no país fora infrutífera para se achar o equivalente exato do perfil genético de Cedric. Parecia que seu tempo havia chegado ao fim. Mas uma pesquisa computadorizada indicou as células congeladas de sangue umbilical na Universidade Duke. Embora não fosse uma combinação perfeita, era similar o suficiente para justificar a tentativa.

"Prontos?", indaga a enfermeira. O pai e mãe de Cedric concordam com um gesto de cabeça, e um liquido rosado começa a percorrer o tubo sinuoso, levando as primeiras dos cerca de 600 milhões de células que seriam injetadas no corpo do garoto. Embora o clima seja de otimismo, o êxito não é certo. "Multipliquem-se, células, multipliquem-se, murmura o pai. A mãe tem os olhos enevoados. Pergunto-lhe o que vê enquanto acompanha o gotejar das células no corpo do filho”. A vida “, diz ela”.O renascimento dele ““.

Apenas um mês depois indicariam se as novas células conseguiram se implantar no organismo de Cedric, mas de certo modo o menino tem sorte. Tudo o que necessita é de um novo suprimento de sangue e de um novo sistema imunológico - e ambos são relativamente fáceis de serem recriados. Um número incontável de pacientes precisa de muito mais que isso. Os diabéticos necessitam de novas células produtoras de insulina. Os infartados poderiam beneficiar-se  de novas células cardíacas. Os paraplégicos poderiam voltar a andar se os nervos em sua medula espinhal pudessem ser refeitos.

Bem distantes dali, em outro ponto dos Estados Unidos, três equipes de cientistas da Universidade de Wisconsin, em Madison, aprendem a cultivar as células-tronco embrionárias que podem tornar tais curas realidade.Ao contrário das células-tronco adultas, que aparentemente dispõem de repertórios limitados, as celulas-tronco extraídas de embriões são bem mais versáteis - elas são "pluripotentes", ou seja, pode transformar-se em todo tipo de células do corpo. As células ali cultivadas descedem em linha direta daquelas isoladas por James Thompson há sete anos.

Em um trabalho que levou anos, Thompson e seus colegas conseguiram que algumas células-tronco originais se multiplicassem e constituíssem o que se conhece como linhagens de "celulas-tronco" - colônias de milhões de células polivalentes que continuam a proliferar, sem, contudo, diferenciar-se em tipos específicos de célula. Repetida vezes, os cientistas transferiram a descendência de cada célula para recipientes de laboratório menos lotados, permitindo que elas proliferassem cada vez mais.

Enquanto isso, o país de esforçava para enfrentar as questões morais associadas a esse trabalho. Levou quase dois anos para que o governo do presidente Bill Clinton delineasse tanto as normas éticas como um sistema de financiamento adequado. A ascensão de George W. Bush impediu que esse plano fosse colocado em prática, e todas as atenções se voltaram ao presidente e à medida que iria tomar. Por fim, em 9 de agosto de 2001, Bush anunciou que recursos federais poderiam ser destinados ao estudo de células-tronco embrionárias. Mas, para evitar que os contribuintes se tornassem cúmplices na destruição de embriões, o dinheiro somente poderia ser usado no estudo das linhagens de células que já estivessem sendo pesquisadas até aquela data - uma quantidade que, para todos os efeitos práticos, se restringia à cerca de duas dúzias de linhagens utilizáveis. Interessados em trabalhar com qualquer uma das mais de 100 linhagens de células-tronco cultivadas após aquela data só poderiam fazer isso com dinheiro do setor privado.

Todos os meses, cientistas oriundos de várias regiões do mundo desembarcaram em Madison para freqüentar um curso de três dias no qual aprendem a cultivar aquelas células aprovadas.Muitos e sentem tolhidos pela decisão de Bush.

Para começar - e por motivos que ainda não são bem entendidos -, a maneira mais segura de manter vivas as células exige que sejam colocadas sobre uma camada de outras células extraídas de embriões de cobaias, técnicas que consome um tempo enorme. No laboratório em Madison, debruçados sobre as bancadas e manipulando fórceps e pipetas com luvas azuis, os cientistas passam a maior parte de um dos dois dias dissecando umas fêmeas grávidas de camundongo, retirando seu útero e extraindo dele uma serie de embriões que mais parecem pequenas ervilhas vermelhas em uma vagem. Em seguida, eles são lados e centrifugados; suas células, separadas e colocadas em recipientes para que se multipliquem. O resultado é um tapete rico em hormônios de células de camundongos, sobre o qual são colocadas algumas poucas  células-tronco de embriões humanos. E ali estas vivem, refesteladas como paxás.

Se seus cientistas-criadores não as alimentarem com nutrientes líquidos frescos pelo menos uma  vez ao dia, elas morrem de fome. Se cada colônia não for dividida ao meio uma vez por semana, morrem de superpopulação. E se uma nova camada de células de camundongo não for preparada e introduzida uma vez a cada duas semanas, as células tronco se transformam em aglomerados estranhos e inúteis que também morrem. Em contraste, os cientistas que contam com recursos privados desenvolveram linhagens de células-tronco embrionárias mais resistentes, menos exigentes e que não dependem das células de camundongo. A eliminação destas não só simplifica o procedimento como também evita o risco de as células-tronco terapêuticas conterem vírus de roedores. Isso, em principio, tornaria mais rápida sua aprovação para testes em seres humanos.

No laboratório em Madison, os cientistas reclamam da fragilidade dessas preciosas colônias. "Não é fácil entendê-las", admite Leann Crandall, um dos instrutores do curso e co-autor de um manual de 85 páginas sobre cuidados e os nutrientes indispensáveis. "Quando a gente se acostuma com elas, porém, vira um caso de amor. Elas maravilhosas, e vão nos proporcionar muitas coisas boas”.

Alguns cientistas americanos estão chegando à conclusão de que talvez seja mais fácil satisfazer seu entusiasmo pelas células-tronco em outros países. Dezenas de novas linhagens de células-tronco embrionárias já foram criadas fora dos Estados Unidos, e muitas nações estão se empenhando no desenvolvimento de tratamentos com base nessas células.

"Conheço muita gente nos Estados Unidos interessada em se dedicar à pesquisa com células-tronco embrionárias, mas não o faz  por causa das incertezas políticas", comenta Stephen Minger, diretor do Laboratório de Biologia de Células-tronco, no King's College, em Londres. "O país corre um grande risco de ficar para trás nesse campo. Aqui, o ambiente de pesquisa é bem mais favorável", diz Minger. Em 2003, sua equipe de nove pessoas tornou-se a primeira  no Reino Unido a cultivar colônias de células-tronco extraídas de embriões humanos. Minger está aperfeiçoando novos sistemas de cultura que não irão depender de células de camundongo. Ele também procura descobrir como fazer para que elas se transformem em células cardíacas, neurais, pancreáticas e retinais, e já está se preparando para testá-las em animais. Em contraste com o que se  passa nos Estados Unidos, ele está fazendo tudo isso com o apoio e supervisão do governo.

O Serviço de Embriologia e Fertilização Humana (HFEA), órgão governamental que há muito supervisiona as clinicas britânicas, recebeu a incumbência de controlar as pesquisas com células-tronco embrionárias. Em reuniões a portas fechadas, uma comissão formada por 18 pessoas nomeadas pelo Serviço Nacional de Saúde examina todos os pedidos para a realização das pesquisas. Dessa comissão fazem parte cientistas, especialistas em ética, juristas e clérigos e leigos que representam a população.

Nos últimos 18 meses, a comissão aprovou cerca de uma dúzia de pedidos para a criação de linhagens de células-tronco, ampliando a quantidade de estudos em andamento para 35. A maioria era rotineira – até Alison Murdoch, uma médica especializada em fertilização, decidiu solicitar autorização para realizar algo que ninguém jamais fizera: clonar embriões humanos especialmente para a obtenção de celulas-tronco. A clonagem de embriões para a produção dessas células é algo ainda mais controverso. A maioria das pessoas ficou sabendo algo a respeito da clonagem de 1997, quando uma equipe de cientista anunciou que conseguira clonar uma ovelha, Dolly. Por esse procedimento, o animal não é criado com base em óvulos e espermatozóides, mas sim por meio da introdução do núcleo de uma célula no interior de um óvulo que teve seu núcleo original removido.

Tal como em outros países, no Reino Unido é ilegal criar bebes humanos clonados (a chamada clonagem reprodutiva), devido aos temores de que possam biologicamente anormais e também em razão das questões éticas em torno da criação de bebes que seriam replicas genéticas de apenas um dos seus pais.

Em 2001, o Parlamento britânico autorizou a clonagem de embriões humanos – mas não de bebes humanos – para uso em pesquisas medicas (a chamada clonagem terapêutica). Mesmo assim, ninguém se sentia confortável com essa perspectiva. A doutora Alison Murdoch, porem, revelou uma argumentação convincente. Se os tecidos substitutivos cultivados com base em células-tronco tivessem a exata conformação genética do paciente, seria muito menos provável que fossem rejeitadas por seu sistema imunológico.E onde seria possível obter uma equivalência tão exata quanto nas células de um embrião clonado do próprio DNA do paciente? Segundo ela, isso também beneficiaria as pesquisas médicas. Imagine um embrião clonado de uma pessoa com a doença de Lou Gehrig, disfunção genética fatal que afeta nervos e músculos. Os cientistas poderiam aprender muito com a possibilidade de observar como a doença afeta as células nervosas e musculares cultivadas com base nas células-tronco, e de verificar os efeitos dos medicamentos. Foram necessários cinco meses de liberações para que o GFEA, afinal, concedesse a permissão para que Alison criasse clones de embriões humanos em seu laboratório. Mas havia uma restrição: é preciso um óvulo para se fazer um clone e, segundo os termos da autorização do HFEA, Alison pode usar apenas aqueles óvulos que seriam descartados pela clinica de fertilidade local – ou seja, os que não são fertilizados após contato com os espermatozóides.

Em maio, ela finalmente conseguiu clonar um embrião, depois de numerosas tentativas fracassadas com os óvulos descartados. “Mas esse não é um arranjo ideal”, comenta Alison. Afinal, os óvulos que não conseguiram ser fertilizado são, quase por definição, de pior qualidade. “Mas o Reino Unido decidiu que, por enquanto, esses são os exemplares aceitáveis em termos éticos. Portanto, temos de nos conformar com isso”.

No Brasil, o quadro é mais radical: a clonagem terapêutica continua banida, sem exceções, pela nova Lei de Biossegurança. Em fevereiro de 2004, a inexistência de obstáculos dessa espécie permitiu que Woo-Suk Hwang e seus colegas da Universidade Nacional de Seoul se tornassem os primeiros do mundo a clonar embriões humanos e a extrair deles células-tronco. O governo sul-coreano permite a pesquisa com embriões humanos originários de óvulos saudáveis. Em maio, a equipe de Hwang anunciou o sucesso na clonagem de embriões geneticamente iguais aos de pessoas com problemas na medula espinhal ou com doenças como a diabetes.

A clonagem é um processo árduo, que exige muita paciência e quase sempre não da em nada, pois as células se rompem ou sofrem danos em seu DNA. Os coreanos, porém, aperfeiçoaram sua habilidade em projetos de clonagem de animais financiados pelo governo. Só no laboratório de Hwang, são produzidos mais de 700 embriões clonados de porcos e bois por dia, sete dias por semana, em um esforço para aperfeiçoar rebanhos dotados de características genéticas especificas.

Algo mais proporciona uma vantagem aos coreanos em relação aos outros interessados na clonagem. “Os asiáticos usam palitos para comer, mas os coreanos usam palitos de metal”, explica Hwang. “Esses palitos metálicos são os mais difíceis de usar, pois escorregam demais”.Olho para o rosto dele, tentando ver se está brincando.Quer dizer que o fato de usar palitos de metal desde a infância faz com que os coreanos sejam mais hábeis na manipulação de óvulos minúsculos?

Só o tempo dirá se essa habilidade é suficiente para manter a Coréia do Sul na liderança, depois que os outros paises se voltarem para a clonagem como uma fonte de células-tronco. A competição será dura. A China é pioneira em uma técnica potencialmente revolucionária, segundo a qual os clones são produzidos pela mistura de células de pele humana e óvulos de coelho, os quais são obtidas com mais facilidades do que os humanos. Nos Estados Unidos, alguns pesquisadores também estão, com financiamentos aprovados, criando projetos de clonagem terapêutica.

No entanto, o maior avanço na corrida internacional para o aperfeiçoamento de terapias baseadas em células-tronco talvez ocorra em um dos menores paises do mundo. Para saber onde ele fica, é preciso rastrear os padrões migratórios dos proeminentes cientistas dos Estados Unidos, da Austrália e até Reino Unido. Todos eles se instalaram em Cingapura.

Os imponentes prédios de laboratório da área conhecida como “Biopolis” foram erguidos em 2001 para impulsionar o setor de biotecnologia do país. Mais parecido com o cenário de uma historia de ficção cientifica, Biopolis abriga edifícios futuristas com nomes como Matrix, Proteos e Chromos. Bolsa de estudo, recursos corporativos para pesquisa, leis que proíbem a clonagem reprodutiva, mas permitem a terapêutica, mão-de-obra de alta qualidade está entre os fatores que atraem cientistas e empresários interessados nas células-tronco. Até mesmo Alan Colman – o especialista em clonagem que fez parte da equipe que criou a ovelha Dolly – deixou a Inglaterra para ser o principal executivo da Es Cell Internacional, uma das empresas de pesquisa com células-tronco que florescem em Cingapura. “Aqui, basta cruzar a rua para saber o que está acontecendo em outros laboratórios. E não é preciso esperar que o Congresso dê sua aprovação a cada passo”, diz o australiano Robert Klupacs, ex-presidente executivo da mesma companhia. A equipe da empresa, com 36 pesquisadores de 15 nacionalidades aproveitou ao máximo essas vantagens. A ES Cell International já criou seis linhagens de células-tronco de embriões normais, não clonados, que já foram autorizadas a receber financiamento federal dos Estados Unidos. Agora, a equipe desenvolve métodos para transformar essas células no tipo de ilhotas celulares pancreáticas que fazem falta aos diabéticos, assim como em células musculares cardíacas que poderiam melhorar a condição das vitimas de ataques do coração. A empresa está aperfeiçoando novos sistemas de cultura, que não dependem de células de camundongos, e centros de produção esterilizados. A previsão é que os testes clínicos em seres humanos tenham inicio em 2007.

A despeito desse ambiente propicio à pesquisa – e de sua ênfase nos aspectos empresariais das investigações cientificas sobre as células-tronco – Cingapura não tem de se consagrar como a capital da biotecnologia. “Um comitê de representantes científicos e humanitários passou dois anos elaborando normas éticas”, ressalta Hwai-Loong Kong, diretor do Conselho de Pesquisa Biomédica. Até a população participou – uma incomum medida democrática na autoritária nação insular. Segundo ele, as políticas do país para o setor constituem um “equilíbrio sensato”, que conquistou apoio publico generalizado.

Nenhum país se debateu tanto com as implicações morais da pesquisa com células-tronco embrionárias do que os Estados Unidos, onde a freqüência às igrejas continua elevada e são inúmeros os bolsões de ceticismo em relação a muitas conclusões cientificas. Esse embate provavelmente vai acirrar-se nos próximos meses e anos.Muitos congressistas gostariam de banir por completo a clonagem de embriões humanos, até mesmo naqueles estados em que hoje o procedimento é legal e financiado por recursos privados. Alguns estados já aprovaram leis proibindo vários tipos de pesquisa com embriões.

No entanto, notei um fato interessante ao conversar com especialistas em outros países. Sempre que os indagava sobre quem eram os melhores pesquisadores na área, as respostas incluíam alguns americanos. Embora as decisões federais os deixem frustrados, eles têm apoio em outros locais. Seguindo o exemplo da Califórnia, que destinou 300 milhões de dólares ao ano a pesquisas com células-tronco ao longo da próxima década, vários estados discutem projetos de lei para financiar tais pesquisas, desviando-se das restrições federais na expectativa de gerar empregos bem remunerados e estimular suas economias. Decisões desse tipo levam alguns observadores a prever que, no das contas, caberá a uma equipe americana a vitória na corrida para criar uma pioneira terapia de célula-tronco embrionária.

Tom Okarma tem absoluta certeza disso e pretende ser o primeiro a cruzar a linha de chegada. Okarma é presidente da Geron, sediada em Menlo Park, Califórnia, quer desde o inicio da revolução das células-tronco embrionárias. Ela financiou o trabalho pioneiro de JamesThomson e, desde então, a empresa já desenvolveu mais de umas dúzias de novas colônias. Ela detém patentes cruciais para os processos e produtos relacionados às células-tronco. Agora estão lançando os fundamentos para aquilo que a empresa espera sejam os primeiros testes clínicos de tratamento. Além disso, enquanto outros tentam obter células-tronco com base em embriões clonados mais recentes que não entraram em contato com células de camundongos, ele se concentra naquelas primeiríssimas colônias de células-tronco de embriões humanos já produzidas: as mesmas que Thompson cultivou em 1998. Talvez isto seja motivo de surpresa, reconhece, mas após todos esses anos conhece aquelas células-tronco de trás pra frente.

“Já comprovamos que elas não foram contaminadas por nenhum tipo de vírus – se ser humano, porco, vaca ou camundongo – e, portanto, são apropriadas para uso humano”, assegura Okarma. Mais importante: a Geron aperfeiçoou um sistema para cultivo de quantidades uniformes de células-filhas de um lote original, que fica guardado, como jóia valiosa, em um congelador trancado. A capacidade de produzir lotes e lotes homogêneos de células, como as industrias farmacêuticas fazem com suas pílulas, é exigência da Food and Drug Administration (FDA), e será “a chave para o sucesso no mercado das terapias baseadas em células-tronco”, diz Okarma.

Atualmente, segundo Okarma, os cientistas da Geron são capazes de produzir oito tipos diferentes de célula com base em suas linhagens embrionárias, incluindo células nervosas, cardíacas, de ilhotas pancreáticas, hepáticas e aquelas células cerebrais que se perdem no mal de Parkinson. Mas o mais interessa a Geron é desenvolver um tratamento para os danos à medula espinhal.

Em seu computador portátil, Okarma me mostra um filme em que ratos brancos aparecem em uma gaiola. “Preste atenção na cauda e nas pernas traseiras”, diz ele. Dois meses antes, os ratos haviam sido submetidos a uma operação na medula que fez com que suas pernas traseiras não mais pudessem suportar o peso do corpo e sua cauda se arrastasse pelo chão. “Esse é um tipo de dano permanente”, prossegue. Em seguida, ele me mostra outro filme com ratos brancos e também dois meses após a operação. A diferença é que estes últimos haviam recebido injeções de uma célula nervosa especializada, cultivada de células-tronco embriões humanos. O resultado é que, ao mover-se, os ratos arrastam apenas ligeiramente as pernas. E sua cauda está sempre erguida. Um deles até mesmo se apoiou sobre as pernas traseiras por alguns instantes.

“Ainda não é o ideal”, continua Okarma. “Ainda não conseguimos produzir uma nova medula espinhal”. Mas os testes mostram que os nervos estão se constituindo. Sua esperança é que, em 2006, a FDA autorize o inicio dos testes pessoas com ferimentos na medula espinhal.

Esses experimentos certamente serão seguidos por muitos outros ao redor do mundo, à medida que as equipes de pesquisadores na China, no Reino Unido, em Cingapura e outros países aprendam a controlar melhor a extraordinária força das células-tronco. Com alguma sorte, as objeções políticas e éticas poderão até mesmo ser equacionada. E muitos desconfiam que o avanço das pesquisas irá mostrar a possibilidade de se encontrar em indivíduos adultos novos tipos de células-tronco tão versáteis quanto as existentes nos embriões.

Pelo menos dois candidatos surgiram no horizonte. Catherine Verfaille, uma especialista em moléstias sanguíneas da Universidade de Minesota, descobriu um novo e estranho tipo de células da medula óssea que parece ser capaz de realizar muitas, e talvez até mesmo todas, das mesmas funções ao alcance das células-tronco embrionárias. E pesquisadores da Universidade Tufts também anunciaram em fevereiro a descoberta de células semelhantes. Embora alguns cientistas tenham manifestado dúvidas de que ambos os tipos de células se mostrem tão úteis quanto as embrionárias, essas descobertas reanimaram as expectativas de que, no lugar mais óbvio, os cientistas ainda poderão encontrar a perfeita célula-tronco adulta.

Talvez o próprio Cedric Seldon seja o responsável por tal descoberta. Pois, felizmente, as células-tronco que recebeu no transplante de sangue umbilical fizeram efeito. Elas se agregaram à medula do garoto com mais rapidez do que em qualquer outro paciente acompanhado por seus médicos. “Todo mundo está dizendo ‘Oh, meu Deus, você está indo tão bem!” “, conta sua mãe”.

Esse resultado faz de Cedric um membro da primeira geração mundial de pessoas regeneradas, uma inconsútil mescla do antigo e do novo – e estranhamente, uma mescla do masculino e do feminino. Pois vale lembrar que suas células-tronco vieram de uma menina, e agora elas estão atarefadas, produzindo células sanguíneas com dois cromossomos X. Isso é um detalhe que não irá afetar seu desenvolvimento sexual, controlado por seus hormônios, nem seu sangue. Mas é uma característica que poderia salvá-lo, brinca a mãe, caso cometa um crime e deixe na cena um pouco do seu sangue. Os testes de DNA não permitiriam margem a duvida, observa ela com razão: ”Eles iriam procurar por uma menina”.


Folha de São Paulo
Drauzio Varella




 

 

 

 

 

 

 

 

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